Um dia, ao chegar à clínica onde
faço terapia, ouvi um miado. Entrei no consultório, tive os meus 50 minutos de
divã e o miado continuava lá, como uma trilha sonora para os meus
questionamentos mais íntimos. Ao sair, decidi ver a cara do miado. Era branca e
tinha olhos enormes, com três pálpebras. Eu não sabia bem o que ia fazer com
ele, mas levei-o para o veterinário. Era ainda um ser sem nome e sem sexo. Algum
tempo depois, quando o levei para casa, já era Milk e gata.
A minha relação com Milk se
estreitou e eu fui sentindo menos necessidade do divã. Ando freqüentando o
consultório apenas de forma quinzenal, pois minha vida, que já era embalada por
leves sons de gatos (água sorvida depressa, ronronados dengosos...), passou a
ter um fundo musical vasto e diversificado. Agora são sons de brigas por ciúmes
e miados por tudo. Os questionamentos ainda existem, é verdade, mas agora, embalados
por miados, parecem bem menos perturbadores.
Milk não passa despercebida nunca, briga com
os outros gatos pela minha atenção, tornou-se dona de tudo o que é meu e me
segue pela casa. Não gosta de portas fechadas pra ela. A gatinha sai arranhando
todas, chora e, assim como eu, acha sempre um meio de entrar onde quer. Além de
tudo, ela reclama pela minha presença, pelo meu carinho, pelo meu amor, pelo
meu tempo. Faz isso de uma forma muito leve e engraçada e acaba por preencher toda
a minha necessidade de me sentir necessária. Mesmo assim, não me sufoca, pressiona
ou chatea.
É como disse o meu mais novo e sábio amigo Burroughs,
"os gatos servem como telas sensitivas para atitudes bastante precisas
quando escalados em papéis apropriados".












