A coluna de Pedro Salgueiro, do jornal O Povo, publicada quinzenalmente às quartas-feiras, trouxe hoje o texto Cães & gatos que eu queria dividir com vocês. O texto fala da ligação de escritores com os felinos. Espero que gostem.
Cães & gatos
"Entre os escritores cearenses conheço as
preferências caninas do amigo Airton Monte e a idolatria saudável da
bela Tércia Montenegro por gatos.
O mundo é dividido entre os que gostam de cães e os que adoram os gatos.
Não à toa não se dão lá muito bem: homens, cães e gatos.
Homens que gostam de cães adoram submissão, veneram os que lhes lambem diuturnamente os pés.
Homens que gostam de gatos são maus, misteriosos e solitários.
Há
os que gostam dos cães por sua fidelidade, companhia e subserviência;
já outros que os detestam exatamente por essas mesmas características.
Existem os que odeiam os gatos por sua frieza, arrogância e discritude; outros os amam exatamente por isso.
Os cães são dos donos, os gatos são das casas... e blá, blá, blás (ou miau, au, aus!)
Sempre
desconfio dos que se apegam demais a uns e a outros. Dos que criam um
número excessivo deles. Pra mim o mais claro sinal de loucura, de
desequilíbrio mental.
Os dois passaram a ser por demais
destacados, cuidados, amados, endeusados: terapias para os males
modernos? Gostava da época em que não eram mais que adereços
corriqueiros de um lar: comiam as sobras, dormiam num canto qualquer da
cozinha, e se vacilassem recebiam um troco conforme fosse o humor dos
habitantes: um afago ou um chute, um osso ou um grito...
Winston
Churchill afirmava que “os gatos são os únicos animais que nos olham de
cima pra baixo”. Patrícia Highsmith dizia que “um cachorro pode ser
utilizado ou comandado, mas um gato não obedece ordens.” Os escritores
de literatura policial e de mistério sempre foram fanáticos por eles:
Edgar Allan Poe e sua esposa Virgínia dormiam com um siamês lhes
aquecendo os pés (e quem não se lembra do seu tenebroso contos O gato
preto?), Raymond Chandler sempre escrevia com seu felino sobre a
escrivaninha, o monumental Simenon frequentemente era fotografado com
seu enorme persa negro, nossas Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector
eram devotas confessas dos bichanos, João Guimarães Rosa também...
O
escritor francês Roger Grenier escreveu um livro belíssimo, Das
dificuldades de ser cão (aqui saiu pela Ed. Cia das Letras em 2002),
sobre cachorros de literatos famosos: do mitológico Argos, de Ulisses,
ao vira-lata mestiço de Thomas Mann; cães para todos os gostos.
Entre
os escritores cearenses conheço as preferências caninas do amigo Airton
Monte e a idolatria saudável da bela Tércia Montenegro por gatos. Já a
queridíssima Ana Miranda reparte seu coração e sua casa grandes
igualmente para cães e gatos.
Eu, modestíssimos escritor de
província, prefiro gatos a cães. Precisamente pelos que os felinos têm
de mais humanos: os defeitos. E não gosto muito de cachorros talvez pelo
simples fato de que um dia, na infância, fui mordido na canela por um
magro vira-lata branco."
Vocês podem enviar considerações sobre o texto através do e mail: pedrosalgueiro@opovo.com.br